Correu, cambaleou, socou o vento, chutou a pedra.
Correu, perdeu o ar, gritou, parou.
Levou as mãos à cabeça,
E fez um gesto como se quisesse arrancar tudo o que lá jazia
Se apoiou nos joelhos, fiéis joelhos, sempre apoiáveis;
Numa breve meditação, fez passar a dor.
E tentou se lembrar por que estava correndo.
Não conseguiu.
E foi aí que percebeu
Que pela primeira vez em sua vida
Havia parado de correr.
Uma breve sensação de ser infinito, de ser ar, gravidade, matéria, energia, livre, planar sobre ondas sonoras deixando um rastro de luz e uma impressão digital a cada mudança de compasso. Se libertar do eu, se libertar do corpo, ser alma ou qualquer coisa que você atribua à presença, estado, sentido ou existência.
Tem sempre essa coisa chata no ar, ar da noite, quanto mais frio mais real, vento cortante, estimulante, pulso que acalma e dispersa os sentidos, liberta e revoluciona. Revolução interna, sem sangue. Ebriedade vinda direto do gargalo que é o centro nervoso, entorpecido com o peso da não necessidade de se processar informações. Não processe, não entenda, só esteja lá, esteja aqui, em todos os lugares, em todos os sons e em todos os ventos. Nunca tenho certeza se realmente tenho o momento, ou se é o momento que me tem. Mas eu vôo a vontade. Plano num ar tóxico, encho os pulmões.
Mas sobre pertencer; Não é tanto no sentido de ter, e sim no de ser. Porque eu acho bem engraçado como a gente tenta sempre fazer parte, e ao mesmo tempo ser visto como algo aparte.
Soraya Mattar.
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